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CITAÇÕES DA DAMA DO INCONSCIENTE  (Educação em Saúde Mental e Atenção Psicossocial II) escrito em sábado 08 agosto 2009 22:48

afeto, amor, crítica, desigualdade social, liberdade, sensível

Relatos de Bernardo Carneiro Horta  sobre o cotidiano  da Dra. Nise da Silveira e citações da doutora.

“Convivi somente 12 anos com a Dra., por oito, estive sempre com ela - e durante cinco deles freqüentei assiduamente o Grupo de Estudos C.G.Jung. Apenas após dois anos de amizade, Nise passou a confiar em mim. Era radical”. (Bernado Carneiro Horta)

"Eu preciso de escafandristas que estejam dispostos a mergulhar no fundo da psique, que acompanhem a viagem do esquizofrênico e depois retornem à superfície com ele", prosseguiu Nise, enfática. "Aqui estudamos Jung, mas também há lugar para Freud, Spinoza, Marie-Louise von Franz, Nietzsche, Laing e Bachelard", disse, em tom de brincadeira.”


"Aqui, prefiro os que sentam nos bancos, pois eles compreendem melhor a natureza deste Grupo. Nunca dei importância a letreiros, como: 'médico', 'psicólogo', 'advogado'... Prefiro pessoas sem muitos babados, inteligentes, sensíveis, que dispensam títulos e diplomas", costumava dizer. “Para estudar, preciso de pescadores, gente simples, boa e com disposição.”


"Freud abriu a porta para o século XX, mas não entrou. Ficou no XIX", brincava. "A psiquiatria tradicional perdeu totalmente suas bases, precisamos de uma nova psiquiatria. Nos últimos séculos, a física deu um grande salto, ela dá o tom de todas as ciências, em todas as épocas - tenho uma grande admiração por Einstein. Então, é preciso que as outras ciências também saltem. Geralmente, os psiquiatras não olham no olho do cliente (esquizofrênico), e o olhar do cliente é um tesouro preciosíssimo. Sem a relação de uma pessoa com outra, não há cura possível. Psiquiatria é a compreensão do processo psicótico, o que está ocorrendo com o indivíduo em sua relação com o mundo exterior e com seu mundo interior - e não entupir as pessoas com remédios para acalmá-las. Às vezes, remédios são necessários para amansar bicho brabo, mas isso não é psiquiatria. Psiquiatria é entender o processo interno psíquico e, para se fazer isso, não é preciso ser psiquiatra. Há uma tendência de tentar ajustar o louco aos costumes da sociedade, mas confesso que considero esta sociedade mais louca que os esquizofrênicos. O psiquiatra deve vestir o escafandro e mergulhar dentro da psique, não adianta distribuir carteiras de identidade do Instituto Félix Pacheco. Afinal, o que Napoleão e Maria Antonieta vão fazer com uma carteira dessas na mão? Nada. Na verdade, aprendi mais com os animais do que com os psiquiatras", disparou Nise, certo dia.


"Pára com isso! Vê-se bem que você é jornalista, inconveniente, oportunista, ignorante, não entende de nada! É perigoso... Calado!!! Você é burro! Está anotando o que eu digo pra quê? Vai mandar para Platão?!"


"Não gosto de quem não reage às minhas broncas e abaixa a cabeça. Quando brigo com alguém, gosto que reaja."


Veio um pessoal me entrevistar, mas as perguntas eram fúteis e riam do que não tinha graça. Então eu disse: 'Podem ir embora, vocês não entenderam nada!' Meu lado Lampião não se segurou. Na verdade, tudo o que não quero é ferir gente que amo, mas quando vejo, já fiz."


"Lembro-me de que uma moça veio conhecer o Grupo de Estudos C.G.Jung e, sincera, disse que não entendia o porquê de o Grupo se chamar assim. A Dra. Nise ficou olhando por alguns segundos para ela e disse: "A sua sorte é que eu não como carne vermelha, senão dava uma mordida no seu braço." A gargalhada foi geral. Quando queria, Nise era muito engraçada. No entanto, a moça ficou sem graça. "O Grupo de Estudos C.G.Jung é a raiz do meu trabalho, a base de tudo, é o instrumento com o qual melhor sei trabalhar. Me sinto como uma costureira, com cinco, sete tesouras, mas que prefere uma delas para costurar", acrescentou, com bom humor. E mesmo para falar da própria morte, brincava: "Quando eu me mudar para outra galáxia..."


"A palavra recuar não faz parte do meu dicionário", afirmava, séria.


Aos poucos, além de admirador e aprendiz, tive o privilégio de me tornar seu amigo. Num domingo, ao visitá-la, perguntei como havia começado seu trabalho, de que ponto tinha partido. Nise respondeu: "Tudo começou com um rol de roupas. Foi ao assistir uma interna, considerada demente, corrigir a grafia da palavra peignoir numa lista que me convenci de que não havia demência nenhuma." Nise, desde nova, recém-formada, era anticonvencional, rebelde e questionadora. Já no início de sua carreira, nos anos 1930, quando trabalhava no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, deixava que os internos a penteassem à moda Luís XV e circulava pelo hospício à vontade. Seus colegas psiquiatras riam e não conseguiam compreender aquela atitude aparentemente sem sentido.


Uma de suas principais qualidades era a obstinação. "Há no meu temperamento essa fúria. Quando quero uma coisa, eu insisto. Todo o dia, sem falta, eu levantava cedo, pegava o ônibus e ia trabalhar em Engenho de Dentro. Todo dia, todo dia... Nada me tirava daquele caminho. Mas não era fácil, havia muitas dificuldades: burocracia, resistência a mudanças, falta de material. Por isso, quando eu entrava no Hospital Psiquiátrico Pedro II, dizia a saudação de Buda: 'Paz a todos os seres.' É preciso ter tutano para se fazer certas coisas."


"No Hospital, eu apenas observava os clientes do Museu de Imagens do Inconsciente desenhando, pintando, modelando. Não criticava, não falava nada. Apenas olhava contemplativamente, gostando, aprovando." Ela sabia que, somente assim, poderia entrar em contato com seus mundos interiores e, conseqüentemente, com a possibilidade da cura, da reintegração à sociedade.


Foi Jung quem lhe revelou que o esquizofrênico se comunica através de imagens profundas, míticas, arquetípicas – ao contrário dos denominados neuróticos, que costumam tratar-se pela expressão da palavra.


"Pra mim, manusear estas máquinas é muito difícil! Cheguei ao telefone por um milagre e, hoje, tenho medo de computadores, como se fossem baratas. Fax, me explicaram, mas não entendi. Não gosto de gravador, é coisa mal-assombrada. Essas tecnologias são um atentado contra a privacidade das pessoas. Gosto muito de segredos, eu penso e me calo, não tem quem me arranque o pensamento. Falo muito aqui no Grupo de Estudos, mas normalmente sou igual a sururu, uma ostrinha que custa a sair da casca."


"Eu sei a história, mas não me lembro das datas. Não sou muito de passado, sou de futuro. Quem olha demais para trás, fica", comentava, quando lhe perguntavam sobre uma possível autobiografia. Recusou-se a escrevê-la.


Tinha a paranóia de que poderia ser usada pelas instituições e temia perder a sagrada liberdade de orientar seu trabalho. "Prefiro ser uma loba faminta a ser um cão gordo e encoleirado. A palavra que mais gosto é liberdade. Gosto do som desta palavra", disparou frente à proposta de apoio de uma multinacional. Quase sempre, a resposta era não.


Não tinha pressa e quando perguntavam como estava passando, costumava dizer: "Bem, fazendo planos para o ano 3000."


Acreditava na condição humana e sempre citava Artaud: "Vivemos diferentes estados do ser." Ela procurava não discriminar."


"A loucura está profundamente ligada ao desamor e, por isso, é preciso amor para salvar alguém da loucura", ensinava.

 

Abrir as portas do hospital psiquiátrico para que os internos pudessem circular livremente pelas ruas do bairro, organizar uma festa semanal com música e dança, ou montar um salão de beleza no hospício parecem ações insólitas ou corriqueiras - mas foi exatamente assim que ela fez a diferença e transformou a psiquiatria. Há quem diga que Nise colocou em prática teorias que o mestre Jung concebeu - mas não teve tempo de praticar.


Acho que se eu a tivesse visto décadas atrás, caminhando pelas ruas do Curvelo, no bairro de Santa Tereza, onde morou, jamais imaginaria que aquela moça franzina se tornaria a fera da antipsiquiatria no final do século XX, homenageada na França, na Itália... Quem diria? A médica que se recusou a apertar o botão para aplicação do eletrochoque em pacientes - por isso tida como covarde ou desatualizada pelos colegas da época - acionou novos mecanismos de tratamento, em nível internacional.


Suas descobertas são fruto de um processo lento, sobretudo obstinado. Não é à toa que foi reconhecida somente após os 50 anos de idade. Escreveu poucos livros e fazia questão de não ostentar intelectualismo arrogante. Com tudo o que sabia, bem o podia fazer, mas preferia - a partir do estudo da obra de Jung - denunciar mais um absurdo social ou cultural que acontece em nosso país, como a Farra do Boi, por exemplo. Até o fim de sua vida não acomodou-se, criticou tudo que considerava retrógrado, desonesto, desumano - e, além de amar a gente, tinha adoração pelos animais, especialmente pelos gatos. "Também admiro os cachorros, que sabem perdoar incondicionalmente. Por isso, estou abaixo de qualquer cachorro, pois eu não sei perdoar. Vocês pensam que eu sou gente? Não sou não, sou bicho, me sinto um deles. O ser humano é perigosíssimo", revelou numa quarta-feira, em tom desafiador. Sempre que podia, elogiava a amiga Lia Cavalcanti, também amante dos animais.


Muitas vezes, parecia magoada com a realidade brasileira e não compreendia como a matança de crianças e a desigualdade social podiam ser consideradas "coisas normais". "Ninguém se espanta com nada hoje em dia! Estão todos acomodados. Acho vocês, do Grupo de Estudos, de uma moleza medonha. Merecem um puxão de orelha, o qual me permito dar como Matusalém. Ouçam bem: nós todos caminhamos para uma diferenciação. A massa dos iguais é um verdadeiro muro e, para não se amoldar a ela de novo, é preciso lutar sempre."


Não foi reconhecida e descoberta por psiquiatras e nem por autoridades ligadas à saúde no Brasil. Basta dizer que quando foi reintegrada ao serviço público, oito anos após sair da prisão, nenhum de seus colegas de profissão comemoraram ou a parabenizaram. "Agiam como se nada tivesse acontecido...", contava, perplexa. Foram artistas, estetas, intelectuais e gente libertária os primeiros a divulgar seu trabalho, baseado no amor, na seriedade, na dedicação e no incansável espírito de luta.


"O mal está de tal modo solto, que não pode ser combatido com violência, mas sim com música e poesia. Há coisas que acontecem pela ação de forças astrais. Elas existem - pelos acontecimentos, sou levada a acreditar. Eu confesso que acredito em anjos. Não me sinto competente para dizer como e o que são, mas eles me aparecem em momentos terríveis de dificuldade, em momentos fundamentais", me disse a Dra, ao falar do ano em que perdeu o marido e quebrou a perna.


"Entre as ciências, a medicina é a mais resistente a modificações. A doença e a morte são uma das principais fontes de lucro do mundo e os médicos são a categoria mais reacionária que já conheci."


Referências:

Horta, Bernado. Nice da Silveira - Gênio do Cotidiano. Retirado de: http://portalliteral.terra.com.br/artigos/nise-da-silveira-genio-do-cotidiano-por-bernardo-carneiro-horta, acesso em 05/08/2009.
Imagem: http://www.lygiafagundestelles.com.br/banco/video/entrevista-com-dra-nise-da-silveira-por-edson-passeti, acesso em 07/08/2009.

 

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